Não é novidade para ninguém o fato de que estamos vivenciando divergências com pessoas próximas motivadas pela polarização política, na qual muitos colocam os candidatos acima dos amigos e parentes. Até bem pouco tempo, uma reunião para celebrar as amizades era um evento normal que nem virava notícia. Hoje, beira o surreal.
É nesse contexto que a festa realizada na Chácara Andrea, no Bairro do Tanquinho, neste dia 8 de outubro, ganhou relevância ao reunir pessoas com a finalidade de celebrar meio século de amizade.
A reunião começou no final da tarde de sábado e se estendeu até a madrugada de domingo. Entre os amigos reunidos, muitos não se viam há tempos, como foi o caso de Paulo Pugina, radicado na capital paulista, que há mais de 40 anos não mantinha contato com a turma. Durante o encontro, Pugina não se conteve, repetindo diversas vezes: “Que maravilha essa festa, esse encontro! Precisamos fazer isso sempre. Que tal pelo menos uma vez por mês?”.
O encontro foi organizado pelo chamado grupo raiz, formado em 1972 por Antonio Carlos Guerreiro (Guega), Antonio Carlos Marcati (Carlinhos), Carlos Henrique Maciel (Surica), João Batista Bacchin, José Luiz Bellini (Brito), Julio Cruz (Beba), José Humberto Marcati (Nino), Zoroastro Marcos Viola e Wilson Breda (ver Box), que se reunia para uma boa conversa nos bares da época — em especial no Bar do Edifício (andar térreo do edifício da Praça Bernardino) — e para curtir a boa música brasileira nos locais onde era permitido. Na esteira do tempo, outros amigos foram agregados. O grupo foi batizado pelos próprios integrantes como “Os Paralelos do Ritmo”, em alusão às paralelas que nunca se encontram: no caso, o ritmo.
“Até um bolo decorado com a frase '50 anos de amizade' foi providenciado para o Parabéns a Você”, contou Bacchin.
A festa foi regada a muito chopp e comida de boteco do chef Tina. Teve música ao vivo, começando com o saxofonista Brito para recepcionar os participantes e depois o cantor Paraná para animar a noite. Em dado momento, para relembrar as rodas de samba e as serenatas dos anos 70, os Paralelos do Ritmo se apresentaram: o cantor Wilson, com Brito na timba, Bacchin no pandeiro e Guega na caixa de fósforos.
"Essa amizade cinquentenária haverá de se projetar para a eternidade. Agradecemos a Deus." (Wilson)
O grupo raiz continuou se reunindo e, nos últimos tempos, passou a alimentar a ideia de ampliar os encontros, reunindo todos aqueles que participaram das cantorias nos anos 70. Neste ano, o sonho começou a ser cristalizado no dia 4 de junho, quando os primeiros passos foram alinhavados, e no dia 28 de junho, quando a festa foi configurada e os contatos foram iniciados para reunir a moçada.
"O primeiro grande desafio foi levantar os nomes e os contatos daqueles que participaram das nossas rodas de samba. Muitos buscaram outras cidades para morar e trabalhar. Enquanto isso, o grupo de organização cuidava de detalhes como o serviço de buffet, contratação de música ao vivo e elaboração de um banner comemorativo para marcar a data e o grande encontro", disse Nino, um dos coordenadores.
“Emoção! Amizade é esperança, sequência de boas lembranças!” (Zoroastro)
Ao final da noite, a satisfação foi unanimidade total. A alegria era a marca do encontro. Todos agradeceram e elogiaram a organização, pedindo que outros encontros sejam realizados para que aqueles que não puderam estar presentes possam participar do próximo. “Foi uma noite para lavar a alma. Estar ao lado de amigos e reviver os bons tempos, para mim, foi um momento abençoado”, concluiu Carlinhos.
Na terça-feira desta semana, os organizadores se reuniram para avaliar a festa e marcar, atendendo a pedidos, o próximo encontro para o dia 18 de fevereiro, celebrando outro grande momento desses amigos: o carnaval.
Como tudo começou?
O grupo raiz formado por Bacchin, Brito, Carlinhos, Guega, Nino, Wilson e Zoroastro começou a tomar corpo em 1972. Eram alunos do curso colegial do IEEESO no período noturno. Os primeiros encontros aconteceram no pátio da escola. Depois, passaram para a Praça Bernardino de Campos, o Bar do Edifício, o Sítio do Guega, a Pizzaria Sebastião Bar, a Churrascaria Rio-Guaçu e tantos outros lugares.
Em junho de 1972, criaram o jornal impresso da escola, o “JOJÔ”, que circulou até novembro de 1973 (seu último ano). O jornal foi um verdadeiro sucesso e registrou a vida da maioria dos alunos — a releitura é obrigatória para quem estudou naquela época (brevemente todas as edições estarão disponíveis no site do grupo).
Em setembro de 1972, o grupo raiz decidiu apresentar uma chapa ao Centro Cívico do IEEESO (naquela época, os grêmios estudantis eram proibidos), composta por alunos do período noturno. No dia 8 de outubro de 1972, a chapa do grupo, a de nº 1, foi eleita com 563 votos, contra 294 dados à segunda colocada, a chapa nº 4. Para comemorar a vitória, os eleitos se reuniram no Sebastião Bar para saborear as deliciosas e inesquecíveis pizzas (esse bar ficava na Rua José Bonifácio, no Centro).
Não demorou para que a música começasse a rolar. De repente, surgiu o Surica, que morava nas proximidades, trazendo seu violão. Juntaram a fome com a vontade de comer. Foi nesse momento inesquecível que eles combinaram o próximo encontro musical, dando vida às futuras rodas de samba, que passariam a ter frequência semanal ao final das noites de sábado ou nas vésperas de feriados, nos bares onde era permitido. O Bar do Coli (na Avenida Saldanha Marinho, Bairro Santa Cruz) era o mais complacente, e lá aconteceu a maioria dos eventos.
Das rodas de samba às serenatas foi um pulo. Zoroastro, com sua Kombi, era o transportador oficial da tropa. Nino tinha a tarefa de conversar com os donos dos bares para que permitissem as rodas de samba. No ano seguinte, o último integrante do grupo raiz, Beba, integrou a turma.
Vale destacar que essa moçada, durante a gestão do Centro Cívico, revoluciona a escola no quesito participação. Com recursos próprios, instalou um sistema de som no pátio para a execução de músicas nos intervalos e adquiriu novos instrumentos para a fanfarra, além de um novo corpo de bandeiras contendo todos os estados brasileiros, que passou a ser utilizado nos desfiles a partir de 7 de setembro de 1973. “Fizemos história no Centro Cívico do IEEESO. Até então, em Itapira, como na maioria das cidades, era uma entidade decorativa, com poucas ações e sem grandes iniciativas”, declarou Neto Coloço, então presidente.
“A canção 'Pela Madrugada', com letra e música do nosso cantor Wilson, até hoje representa o espírito da nossa turma, que tinha nas madrugadas dos dias de folga o refúgio alegre da semana cansada, estudada e trabalhada”, lembrou Nino.
Brito conta que, a cada roda de samba, novos amigos se aproximavam e apreciavam a música: “Em algumas ocasiões, chegamos a reunir mais de 50 amigos nos bares ou nos churrascos que organizávamos. Modéstia no lixo: onde a nossa turma estava, virava uma grande festa!”
Ao Tribuna, Guega concluiu com chave de ouro: “O nosso grupo não se declara nostálgico, mas sim como um exemplo de quem soube, como poucos, atravessar a adolescência construindo e mantendo uma amizade que vara meio século — e assim vai continuar”.
*Texto elaborado por Nino, a pedido do jornalista Fernando, para orientar a elaboração da matéria publicada na edição de 16/10/2022 do jornal Tribuna de Itapira.
Os integrantes do Grupo Raiz (à esquerda: Wilson, Nino e Bacchin; à direita Brito, Carlinhos, Guega e Zoroatro – ao fundo, o banner comemorativo)
O bolo em comemoração aos 50 anos de amizade
Foto oficial do encontro
Muita conversa, grandes recordações