Naquela primeira noite fria de 2025, um bando de amigos septuagenários invadiu um barzinho da cidade como se fosse uma excursão do INSS. O clima estava perfeito: gelado lá fora, gelada no copo e a memória... bem, essa ninguém lembrava onde tinha deixado.
O primeiro a chegar foi Irso. Ainda não tinha setenta, mas a cara já dava spoiler de oitenta e cinco. Recusou o estacionamento do bar dizendo que o portão era estreito demais — na real, estava meio cego e preferiu evitar manobras arriscadas. Parou o carro meio torto na rua e desceu com a elegância de quem acabou de acordar de uma soneca de três dias.
Enquanto ele tentava descobrir onde era a entrada, Zoro e Fubá chegaram.
— Quem é aquele cara? — perguntou Zoro, desconfiado.
Fubá estreitou os olhos, analisou com ar de sabedoria e respondeu:
— Sei lá... acho que é o Homer. E você, quem é?
Zoro, confuso, apontou para a Sumie:
— Ela talvez saiba.
— Acho que conheço você de algum lugar... Quem é você mesmo?
— Pera aí — respondeu Fubá —, vou perguntar para aquela moça, ela sabe de tudo! — e foi em direção à Magali.
Irso, bufando, chegou às mesas e perguntou com toda a convicção de um perdido no tempo:
— Aqui é a Divina?
Zoro e Fubá se entreolharam, giraram o dedo na têmpora e responderam juntos:
— Não, seu bobo, você ainda não morreu!
Nino chegou em seguida, olhou o grupo e pensou: "Será que fui internado e esse é o grupo de terapia ocupacional? Que povo esquisito!"
Logo depois apareceu Antonildo, animado, distribuindo cumprimentos como político em véspera de eleição. Cumprimentava, dava a volta e cumprimentava de novo. Depois da quinta rodada de "oi, tudo bem?", Graciela perdeu a paciência:
— Senta e fica quieto, criatura!
Ele se sentou, obediente, como se ela fosse a diretora da escola.
Quando finalmente todos estavam à mesa, o garçom se aproximou para anotar os pedidos, mas encontrou olhares perdidos.
— E aí, vão querer alguma coisa? — insistiu, após a quinta tentativa.
Irso, encarando o nada, resmungou:
— Eu vou beber do meu cantil. Essa gente aí... não sei quem é e nem quero saber.
Fubá, mais rápido que boleto no fim do mês, berrou:
— Traz uma Malt 90!
O garçom piscou, foi ao balcão e voltou confuso:
— Ninguém aqui sabe o que é isso.
— É o que dá entrar no primeiro boteco que aparece — resmungou Fubá. — Isso aqui tá mais pra retiro espiritual. Preferia o Bar do Colli!
Aí chegou Guega, como sempre o último, já se justificando:
— Precisei fechar a lojinha! E aí, de quem é o aniversário? Não vai ter parabéns? Cadê o bolo?
Violeta surgiu do nada, com seu jeito carinhoso, e avisou:
— Benhê, tá na hora do seu remedinho.
Logo depois apareceu Debrits. Antes de sentar, olhou para o teto como quem avalia a chance de pegar sereno e ter uma pneumonia.
— Me vê um Hi-Fi! — pediu.
— Não tem — respondeu o garçom.
— Cuba Libre?
— Não.
— Gin Tônica?
— Também não.
— Conhaque Macieira?
— Quem?
Debrits suspirou e se rendeu:
— Me dá um Campari com limão. Sem gelo. Sem nome mesmo. — Olhou em volta e perguntou: — Ué, e o Beba e o Surica?
Guega deu de ombros:
— Acho que foram parar no Bar da Rosária. Coitados... escutaram a primeira ideia que apareceu e foram.
Nesse momento, Irso se levantou, fez um gesto solene com a mão e, com cara de quem ia anunciar algo histórico, soltou:
— Alguém pode me dizer o que a gente tá fazendo aqui?
A mesa explodiu em gargalhadas. Ninguém soube responder — e ninguém fez questão. Ficaram ali, rindo e conversando, esquecendo-se das horas, da memória e da vida.
Por Nino