Essa história, confesso, me causa incômodo. A despeito dos momentos agradáveis proporcionados naquela noite, eu a apagaria da memória, se pudesse. No entanto, não posso renegá-la. Naquela ocasião, magoei profundamente um grande amigo, privando-me, por mais de dois anos, da sua convivência. Até hoje não consigo rememorar aqueles escassos minutos sem me arrepender, pois essa pessoa continua sendo não apenas um amigo exemplar, mas um companheiro para todas as horas, ideias e aventuras.
É fato que minha dosagem alcoólica estava acima dos padrões normais para um sábado de roda de samba e que eu poderia, em minha defesa, tentar justificar os desatinos proferidos. Sem chance! Ao ser alertado, logo no início do desentendimento, de que estava bêbado e não sabia o que dizia, retruquei: “De maneira nenhuma, eu só bebo a minha quantia.”
Era um sábado como tantos outros. No dia seguinte, teríamos um churrasco no sítio do Guerreiro. O Guega, como de costume, nos convidou para o esquenta: rodar o samba até o sol raiar. Pouco antes das 23h, a kombi branca nos apanhou na porta do Bar do Edifício. Chegando ao sítio, o Guega procurou a chave da casa e percebeu que a havia esquecido. Deu meia-volta para buscá-la. Eu, Carlinhos, Brito e Dorado decidimos ficar por lá, sentados na mureta da garagem, jogando conversa fora.
Não recordo quem teve a primeira ideia infeliz da noite: “Vamos ver se há alguma janela entreaberta para entrarmos?”
Todas as janelas estavam bem fechadas, frustrando nossa intentona. Mas, como o diabinho estava no comando, o vitrô basculante do banheiro não estava travado. Nasceu a segunda ideia infeliz: “Que tal entrar por esse vitrô?” Como o mais adequado para a função, aparentemente, era o Dorado, ele foi erguido com os pés passando entre as duas folhas da basculante. Até a coxa, tudo correu bem. Quando chegou a vez do quadril, por falta de altura, ele travou. O peso quebrou o vidro inferior e cortou levemente a dita cuja. Naquele sonoro “ai, ai, ai”, recuamos e desistimos. Voltamose para a garagem e aguardamos, comportados como santinhos, o retorno do Guega. Selamos ali a terceira ideia infeliz: o voto de silêncio.
Com a turma já reunida na casa, a roda de samba corria solta na garagem e na pequena sala. Em determinado momento, alguém sugeriu uma música, mas não sabia o nome, o cantor e nem cantarolar; só sabia que era “um sambinha”. O Fubá e o Brito lançaram, então, o famoso “sambinha esquecido nosso”. Depois disso, sempre que o Carlinhos pedia para tocar algo, Irso, Surica & Cia. começavam e não paravam mais de cantar, enchendo o saco de todo mundo.
Voltando ao repertório tradicional, um gaiato resolveu imitar o apito do trem. Foi a senha para que uns repetissem o apito e outros o som da locomotiva em movimento — todos em fila pela casa e pelo corredor, acompanhados por violão, bongô e pandeiro. O gravador National do Carlinhos registrou tudo, mas a fita cassete acabou se perdendo.
Na cozinha, Beba, Genésio e mais dois organizavam uma espécie de sessão em torno da mesa, a qual chamavam de “espírita”, onde um copo se movimentava por supostos espíritos. Eis que o Guega resolveu entrar no banheiro, viu o vitrô quebrado e saiu fuzilando:
— Quem quebrou o vidro do vitrô do banheiro?
O Genésio, cuidadosamente, explicou:
— Vou dizer uma coisa: fui há pouco ao banheiro e não vi nada quebrado. Eu saí, e o Surica entrou...
Ao ser interpelado, o Surica, que já estava para lá de Bagdá, claudicante, respondeu:
— Não sei se fui eu. Não me lembro disso!
Fomos para o quarto. Na cama de casal ficamos eu, Surica e Genésio; na cama de solteiro à nossa esquerda, salvo engano, estava o Irso. Agitados, o sono não vinha. Conversávamos e dávamos risadas quando o Guega, ainda inconformado, entrou no quarto na maior bronca. Eu, para variar, me meti onde não era chamado e disse uma série de bobagens para ele — muitas sem o menor sentido, mas dolorosas. Ele saiu do quarto, entristecido.
O Surica, ainda aceso, resolveu contar piadas. Contou uma, duas, três... Aos poucos, percebemos que a voz dele ia sumindo, acompanhada de barulhos estranhos. Num ato repentino e premonitório, eu e o Genésio derrubamos o contador de piadas da cama. Pura sorte. Já no chão, ao lado do colchão, ele “destripou o mico” com tudo a que tinha direito. Coube ao vomitador infeliz a tarefa de limpar toda a sujeira, embora a lembrança malcheirosa tenha persistido por algum tempo. Finalmente, dormimos.
O dia amanheceu, e a turma do “acorda todo mundo” entrou em cena assim que a luz despontou. Notamos que o Guega já não estava no sítio. Um irmão dele apareceu, ajudou com a carne e ficou conosco até o final da jornada. Certamente, foi o churrasco mais triste da minha vida: pouco comi, pouco bebi.
Resultado: ficamos mais de dois anos afastados. Retomada a amizade, demorei para abordar aquela malfadada noite. Foram mais de vinte anos até que, durante um churrasco na chácara do Carlinhos, o assunto surgiu com naturalidade. Só ali, aliviado, senti a noite daquele sábado finalmente acabar para mim.
Nem sempre tomamos o devido cuidado nas brincadeiras, nas palavras ou nas atitudes com nossos amigos. As falhas leves são relevadas; as mais pesadas nem sempre — a menos que o tempo cuide da cicatrização.
Aquela noite ficou gravada em todos nós. Tomara que outras histórias ou novas perspectivas desses acontecimentos sejam contadas e publicadas. Para mim, ficou uma grande lição: compreender e respeitar os pensamentos e as atitudes dos amigos, procurando reparar os eventuais cacos quebrados — seja de imediato ou dando tempo ao tempo.
A amizade é um bem tão precioso que não podemos nos dar ao luxo de depreciar. Nada, ninguém, nenhum assunto e nenhuma ideia é mais importante do que os nossos amigos, mesmo que a gente só se veja de vez em quando.
A magia da amizade sempre nos encanta, mesmo nos eventuais desencantos.
Por Nino, com a colaboração de Carlinhos