Essa história deixa um amigo nosso totalmente sem jeito sempre que é contada. Por isso, peço escusas ao nobre leitor, mas, em respeito à nossa amizade sexagenária, farei o possível — e o impossível — para não escancarar sua identidade.
Acontece que a história não pode morrer no limbo. Afinal, reúne dois fatos sensacionais e inesquecíveis: um momento musical de primeira grandeza e uma definição primorosa — e hilariante.
Durante a ditadura militar, o circuito universitário era um dos principais canais alternativos para a atuação de artistas consagrados da MPB fora do circuito comercial de shows, boates, grandes rádios e televisão. Aqueles que não se alinhavam aos ideais da “Revolução” sofriam forte patrulhamento. Centros Acadêmicos e Diretórios Centrais dos Estudantes organizavam shows, debates e eventos culturais em auditórios, pátios e teatros universitários.
Certo dia, em 1973, o Surica nos convidou para um show organizado pelo Diretório Acadêmico da Faculdade de São João da Boa Vista. Lá fomos nós — eu, Carlinhos e Wilson — no famoso Opala vermelho-alaranjado.
As atrações eram nada mais, nada menos que Vinicius de Moraes, Toquinho e o Quarteto em Cy. Só isso já sinalizava que a noite seria histórica.
Foi um desfile de grandes sucessos. Assim que a música Cotidiano nº 2 deu seu último acorde, Carlinhos virou-se para esse nosso amigo — estávamos os quatro sentados lado a lado — e perguntou, na maior naturalidade:
— O que é Neruda?
Enquanto eu e o Surica fazíamos cara de paisagem, o amigo em questão logo se adiantou para explicar, usando todo o calor de sua impostada oratória professoral:
— Olha, Carlinhos, veja bem. A letra diz: “Eu abro o meu Neruda e apago o sol”. Entendo que se trata de óculos escuros ou de um guarda-sol.
Para ilustrar a explicação, tirou os próprios óculos, fechou-os e fez o gesto de abri-los e colocá-los novamente no rosto. Em seguida, mimetizou o movimento de quem abre um guarda-chuva.
E concluiu, triunfante:
— Nos dois casos, eu abro e deixo de ver o Sol. Entendeu?
Não há dúvida de que nossa ignorância sobre Neruda era compreensível. Com a ditadura vivendo seu período mais sombrio, poucos brasileiros tinham informações, quanto mais acesso às obras do poeta chileno ou de outros escritores do mesmo quilate. Eu mesmo só fui descobrir de quem se tratava algum tempo depois, no cursinho.
A explicação do nosso amigo, porém, só se transformou em piada eterna porque o dito-cujo era o “poeta da turma” — além de cantor — e vivia se gabando da própria cultura e do apego ao português castiço. Não perdia uma oportunidade de corrigir nossos deslizes linguísticos.
Talvez por isso a história tenha sobrevivido por mais de cinco décadas. Afinal, há momentos em que a ignorância é perdoável.
Por Nino