Eu não poderia deixar de compartilhar esta história — da qual soube tintim por tintim —, protagonizada por um amigo deste nosso seleto grupo em uma viagem recente. Não revelarei a identidade do sujeito: o esperto decretou sigilo de 100 anos. Portanto, o que será narrado aqui deve morrer entre nós.
Posso garantir que a história é memorável. Até hoje não consegui classificá-la: não sei se é tragédia ou comédia. Deixo essa tarefa aos senhores.
Em certo dia da viagem, nosso amigo acordou animado e foi direto para o café da manhã. Fez o que todo brasileiro maduro e experiente faz: comeu como se estivesse estocando calorias para um inverno nuclear. A estratégia era simples: — Se eu caprichar no café da manhã, empurro o almoço para as 16h e elimino o jantar.
Não é avareza. É estratégia de sobrevivência.
Horas depois, passeando por Veneza, admirando canais, pontes e a charmosa decadência do antigo império, ele sentiu. Veio a primeira cólica. Ignorou. Veio a segunda. Travou. Na terceira, entendeu: não era um aviso, era um ultimato. O dito cujo havia decretado estado de emergência.
Começou então a operação “Encontrar um Banheiro Urgentemente”. Achou um sanitário público. Pagou e entrou com a velocidade de um velocista olímpico. Ao abrir a cabine, deparou-se com o inimigo ancestral da civilização ocidental: a bacia turca. Aquela entidade demoníaca, posicionada no chão, que exige agachamento profundo, equilíbrio, mobilidade articular e fé.
Naquele instante, pensou: — Acho que vai dar merda. Literal e metaforicamente.
Não havia tempo para filosofia. Baixou as calças, agachou, sofreu e concluiu a missão. Fim? Não. O verdadeiro drama começou na tentativa de levantar. As pernas falharam: quadríceps em pane, joelhos em greve, lombar em colapso. O homem estava preso. Nu da cintura para baixo, com os pés enganchados na calça e na cueca.
Em posição fetal vertical, dentro do banheiro veneziano, começou a gritar: — Socorro!
Nada. Tentou: — HELP!
Nada também. Apelou para: — SOS!
Silêncio absoluto. Foi então que a memória resgatou uma palavra aprendida num antigo curso no Circolo: — AIUTO! AIUTO!
Como um milagre, uma corda surgiu por cima da porta. Mas havia um problema: a ponta estava suja. Muito suja. Nosso amigo olhou e pensou: "Isso é bosta". Entrou em pânico e gritou: — Tá suja! Tá suja!
Silêncio total. Desconfiou que o problema era o português e puxou do fundo do HD a última palavra em italiano que lhe restava: — SPORCA! SPORCA!
Novo milagre: a porta se abriu. (Detalhe: a porta não tinha tranca. Estar fechada significava apenas “tem gente”. A privacidade ali era um conceito muito mais filosófico do que físico).
Eis que surge uma figura colossal: um funcionário de quase dois metros de altura, ombros de armário duplex e mãos de escavadeira. Ele olhou para a cena, viu o sujeito quase chorando e perguntou calmamente: — Che succede?
Nosso amigo, com a dignidade em frangalhos, explicou a situação. O homem fez um esforço sobre-humano para não rir. Não julgou, não fez perguntas. Apenas estendeu a mão.
Nosso amigo, após verificar cuidadosamente se a mão estava limpa, segurou. Recebeu uma puxada tão monumental que, por um instante, achou que sua alma havia saído primeiro e o corpo viera logo atrás.
Em pé, vestiu as calças às pressas, em completo estado de choque. Saiu desnorteado — nem lavou as mãos.
Lá fora, após caminhar alguns metros, veio a revelação final. O horror derradeiro: ele havia esquecido de limpar... o principal.
Parou. Refletiu. Calculou. Voltar significava pagar novamente para usar o banheiro. Fez, então, a escolha mais pragmática de toda a viagem. Olhou para o Campanário de São Marcos, colocou a mão no coração e decretou: — Que se foda.